Vivemos tempos marcados por uma inquietação constante. A todo momento somos convocados a produzir, performar, a provar nosso valor com metas, resultados e conquistas pessoais. O excesso de positividade e a pressão pelo sucesso geram uma forma de violência que o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, em A Sociedade do Cansaço, chama de “violência neural”. Saímos da "sociedade da disciplina", descrita por Michel Foucault — onde havia controle externo por meio de normas e vigilância — para mergulharmos na “sociedade do desempenho”, onde viramos patrão e funcionário de nós mesmos. E nem dá para pedir férias.
Nesse cenário, o cansaço não é apenas físico, é existencial. É como abrir cinquenta abas no navegador da vida e esquecer o que estava procurando. Todavia, nem tudo está perdido, existem formas de atenuar essa realidade. Domenico De Masi nos propõe, em O Ócio Criativo, algo quase subversivo hoje em dia — trabalho, estudo e diversão coexistindo. Para ele, ócio não é preguiça, mas tempo fértil. Ou seja, valoriza aquele momento em que você olha para o teto e pá! Tem uma ideia genial e sem cronômetro!
É nesse respiro que encontro nas artes um contraponto à lógica opressora do desempenho. A arte resiste ao tempo apressado, à positividade forçada do “vai que dá!”. Ela convida à pausa, à escuta, ao silêncio e a tudo aquilo que a produtividade sufoca com frases de efeito em canecas. Han resgata a importância da vida contemplativa e De Masi reforça que o ócio é espaço criativo, não de culpa. Dormir depois do almoço pode ser, sim, um ato revolucionário.
Vivemos uma epidemia de esgotamento. Burnout, ansiedade e depressão não são mais casos isolados. São, na realidade, cada vez mais frequentes. Se no passado éramos oprimidos por forças externas - características da sociedade descrita por Foucault - hoje exploramos a nós mesmos, tentando performar 24/7, como se a vida fosse um reality show sem pausa. De Masi, contudo, vai na contramão ao propor desacelerar, sonhar acordado, e lembrar que viver também é um verbo importante.
Nesse cenário, as artes emergem como resposta vital. Não como luxo, mas como necessidade. Elas oferecem o que nos falta: a pausa, o sentir, a escuta, o vínculo, a dúvida e, por que não, o riso. A arte não exige metas ou entregas; ela exige presença. Ao contemplar uma pintura, ouvir uma sinfonia ou assistir a uma peça, o tempo muda. E ninguém te cobra relatório depois.
A música, a dança, a escrita e a pintura reduzem estresse e ansiedade. Em hospitais, por exemplo, a arteterapia já virou cuidado. Nas comunidades vulneráveis, projetos culturais mostram que a arte promove pertencimento e autoestima. Sentimentos humanos que, definitivamente, não cabem numa planilha.
Na educação, o papel das artes é essencial. Um sistema que forma só para o mercado cria profissionais, mas não necessariamente humanos sensíveis. Sem dúvidas, um bom livro e uma música nos ensinam mais sobre a vida do que muito PowerPoint por aí.
Mais do que refúgio, a arte é trincheira simbólica. Num mundo domesticado pelo marketing pessoal, ela ainda pode incomodar, provocar, revelar o que está fora da moldura. De Masi diria que entre um e-mail e outro, cabe um poema. Ou, pelo menos, um bom samba!
Em tempos de hiperconexão, produtividade tóxica e fadiga crônica, é urgente recuperar o valor da experiência estética, não como capricho, mas como antídoto. A arte talvez não salve o mundo mas ajuda a gente a não adoecer com ele. Lembra que somos mais do que função. E que há beleza também na pausa, no silêncio e até na segunda-feira em que nada deu certo.
Se quisermos resistir à lógica da sociedade do cansaço, talvez seja hora de ouvir mais música, desenhar sem motivo, contemplar o céu sem culpa e praticar o ócio criativo com coragem e afeto. Talvez seja hora de sermos tocados pela arte, não para sermos mais produtivos, mas simplesmente mais vivos.
(*) FABRICIO CARVALHO é Maestro e Membro da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira n.º 23).
@maestrofabriciocarvalho
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