Quinta-Feira, 02 de Julho de 2020, 11h:51

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Com a internet, vivemos em uma época esclarecida?

Por: ALIANA CAMARGO

Arquivo pessoal

Aliana Camargo Costa

Com mais de 95% da informação digitalizada na rede é possível que estejamos em uma época esclarecida? Qualquer coisa que se queira saber é só dar um Google e uma infinidade de respostas estará lá.

Mas ainda que tenhamos acesso a todas essas informações a pergunta persiste - estamos em uma época esclarecida? Procurar reflexão para a questão me ajuda a pensar na relação das crianças com o YouTube (meu objeto de pesquisa), ou para a questão de como as fake news tem desestruturado a nossa sociedade, ou para a polarização que assombra o país. 

O questionamento também reflete um dado que nos chama a atenção, segundo a última pesquisa TIC KIDS Online Brasil (2019) apenas 15% da população entre 9 e 17 anos disse ter interesse em conversar sobre política ou problemas da sua cidade ou seu país, isso demonstra a falta de engajamento e do exercício de cidadania da nova geração? Mas a pesquisa não se limita a isso, tendo outros resultados que precisam ser pensados em termos de políticas públicas quanto à vida digital e seus desdobramentos.  

Para ajudar na questão central deste artigo vamos recorrer ao livro Educação e Emancipação de Theodor Adorno. A nossa formação atual passa pela cultura digital, quando as tecnologias de informação e comunicação tomam uma grande proporção em nossas vidas a ponto de termos uma estreita relação com redes sociais como o YouTube, Whatsapp, Facebook, Instagram. Então outra questão surge – estamos sendo formados ou informados por essas redes? E teremos o conhecimento assegurado ao ter informação?

Formar é um verbo transitivo direto cujo sentido é dar ou receber instrução ou educação formal; informar é dar inteligibilidade ao que propomos transmitir para um receptor, um gesto corporal, um texto, uma imagem. Mas receber uma informação não quer dizer que adquirimos conhecimento, para isso um processo complexo de qualificar um signo, objeto e interpretação precisa entrar em ação. A mediação, o que está no entre da relação entre o eu e o que “consumimos” por meio da tecnologia, precisa de uma construção de significados. 

Dessa construção do conhecimento surge o pensar no ser emancipado tão bem fundamentado por Adorno, que indica ser a educação o caminho que nos levará a desbarbarização do que observamos em rede e na busca por uma democracia. Estamos em uma civilização com alto grau de desenvolvimento tecnológico, e com expansão da comunicação, ao mesmo tempo em que as pessoas se despreendem do processo civilizador para terem atos primitivos, de agressividade, ódio em rede. O autor utiliza o ensaio de Immanuel Kant: “Resposta à pergunta: o que é esclarecimento?” para traçar a emancipação dos homens a qual é definida por Kant da seguinte maneira: “Esclarecimento é a saída dos homens de sua autoinculpável menoridade”. Para o filósofo que surge do iluminismo não vivemos em uma época esclarecida, mas uma época de esclarecimento. O indivíduo não pode estar fixado em uma categoria estática, mas como categoria dinâmica, como um vir a ser, um devir e não um ser pronto e acabado; esse é o processo de emancipação. 

De forma que é por meio da aceitação da ciência, da aceitação da Educação que podemos nos tornar seres altamente adaptáveis para as complexidades do mundo. Assim, nos dirá Adorno: “a educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo”. 

Para saber mais sobre a pesquisa do Comitê Gestor da Internet acesse pelo link: https://cetic.br/pt/tics/kidsonline/2019/criancas/B1F/

 

(*) ALIANA CAMARGO COSTA é jornalista, Mestre em Estudos de Cultura Contemporânea pela UFMT e Doutoranda em Educação pelo Programa de pós-graduação  em Educação da UFMT.


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