Domingo, 28 de Junho de 2020, 08h:00

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Bar do Bugre e a família Novis Neves

Por: YLCLÉA NOVIS NEVES / RENATA NEVES

Album de Família

Ylcléia Novis / Renata Neves

 Ylcléa Maria Novis Neves Pereira Lima                  Renata Neves Tavares de Barros Freitas 

Entrelaçadas estão a história do “Bar do Bugre”, da Família Novis Neves e a devoção a São Pedro. Tudo teve início no ano 1920, quando, nas palavras de Gabriel Novis Neves:

“O ano – mil novecentos e vinte. O dia – vinte e nove de junho. O meu pai prestes a completar vinte e seis anos.  Instrução primária incompleta, vivia de pequenos biscates.  Cobrador de Pedro Celestino Corrêa da Costa, dono de farmácia e de alguns poucos médicos da época.  A vida continuava e, boa. Não lhe faltava o essencial.  Nas famílias numerosas, havia uma perfeita socialização da riqueza.  Alguns trabalhavam e outros, não; tudo na mais perfeita harmonia. Hábitos tribais do século XIX. Era importante ser e não, ter.

A minha avó paterna, filha de uruguaia com militar gaúcho, carioca de nascimento, tinha uma visão metropolitana da vida e preocupações com o futuro.  Sabia que aquela situação familiar não podia continuar.  Com calma, sabedoria e equilíbrio, acumulava um pacote de filhos – adultos – dependentes.  Neste pacote, estava o meu pai, o Tinô, o João, o Ioiô e, inicialmente, o Coca. 

Cuiabá estava inaugurando um cinema num galpão ao lado do reformado Cine Teatro Cuiabá.  Minha avó, que além de mãe, dona de casa, doceira e boleira, preocupada com o futuro dos filhos, viu a grande oportunidade de montar para aquele pacote, um bar.  A inauguração foi aleatória, acho que num sábado, vinte e nove de junho.  A empresa não possuía nome.  Todos os amigos e a sociedade compareceram para prestigiar o evento.  Os salgadinhos vinham da cozinha da minha avó, auxiliada pelas filhas Julita, Pequenina e Aracy.  As bebidas foram compradas no fiado e os refrescos, feitos na hora.  Sucesso absoluto!  No dia seguinte, o primeiro problema: o bar não podia ser aberto, pois todo o seu estoque acabara.  Providências foram tomadas e, na hora do cinema, o bar estava funcionando.  Os amigos do meu pai queriam saber o nome da “espelunca”.  Vários nomes surgiram, até que ficou o do agrado do meu pai: Bar Moderno.  Registrado na Junta Comercial como Bar Moderno e proprietário único, Olyntho Neves.  O nome, porém, ficou só no registro da Junta e papai, que tinha o apelido de BUGRE, ganhou sobrenome: Bugre do Bar.  E Bar Moderno sempre foi o Bar do Bugre.

Reprodução

Bar do Bugre

Catorze anos depois, já na sede própria do casarão na Praça Alencastro, minha mãe atribuiu o êxito do Bar a São Pedro.

A partir daí, fazemos anualmente a festa de São Pedro – protetor da nossa família.”

Neste ano de 2020 comemoramos o centenário da criação do “Bar do Bugre” que, sob o comando de Olyntho Neves, funcionou por meio século.  Inaugurado no imóvel do antigo Grande Hotel  (na Avenida Getúlio Vargas, esquina com a Rua Joaquim Murtinho), em 1922 foi transferido para um local estratégico e privilegiado: esquina da Praça Alencastro com a Praça da República, onde permaneceu em funcionamento até 1970.  Ponto de encontro de personalidades da época, o Bar do Bugre tornou-se referência histórica e cultural da Cuiabá Antiga.

“Realmente, o “Bar do Bugre” funcionava como termômetro político da capital e com seu fechamento, em 29 de junho de 1970, dia do seu jubileu de ouro,  Cuiabá perdeu a sua bússola política”. 

Não por coincidência, o Bar do Bugre iniciou e encerrou suas atividades no mesmo dia 29 de junho. À frente do bar e atrás do balcão, Bugre conseguiu criar os “Novis Neves”, enfrentando, ao lado de Irene, todos os obstáculos que a vida lhes impunha. 

Reconhecendo em São Pedro a benção da proteção e da prosperidade familiar, de 1934 até o seu falecimento no ano de 2006, Irene, nossa mãe e avó, celebrava o dia 29 de junho, em sua casa, junto à pequena imagem de São Pedro, com a oração do terço e, após, comemorava a festividade servindo uns bolinhos com sucos e refrigerantes.  Não carecia convite, pois todos já conheciam a simbologia da data e a devoção a São Pedro.  Assim, ao longo de todos esses anos, ao cair da tarde, todo dia 29 de junho os Novis Neves se reuniram para rezar e festejar São Pedro. 

Com o falecimento da matriarca, a pequena imagem de São Pedro passou a pertencer à sua filha Aracy.  Os filhos assumiram a manutenção da tradição e, por conseguinte, continuam a se reunir todo dia 29 de junho de cada ano em honra e glória a São Pedro, agora, junto aos netos, bisnetos e tetranetos. 

Importante registrar que no dia 29 de junho de 2013 nascia Pedro Paulo, segundo neto de Pedro Novis Neves, filho de sua primogênita, Janaína, com Paulo Gustavo Dale, reafirmando os laços existentes entre São Pedro e a família Novis Neves.

Infelizmente neste ano, por conta da emergência de saúde mundial declarada em virtude da COVID-19 – novo coronavírus, não será possível reunir a família presencialmente. Como alternativa à restrição ao convívio social, cada núcleo familiar, em sua residência, rezará a novena à São Pedro a partir do dia 21 deste mês, finalizando no dia 29, na casa de Aracy, de onde será transmitida a oração do terço virtualmente a todos os Novis Neves.  Essa alternativa, além de viabilizar a manutenção da tradição octagenária, possibilitará também que os familiares residentes em outras unidades da federação possam participar. 

Que no próximo ano possamos todos, com as graças de Deus e as bençãos de São Pedro, realizar essa festa novamente de modo presencial. 

(*) Ylcléa Maria Novis Neves Pereira Lima - pedagoga  e servidora pública - é a quinta filha de Olyntho Neves, o Brugre, e Irene Novis Neves. 

(*) Renata Neves Tavares de Barros Freitas -  pedagoga e servidora pública – é  4ª Filha de Antonieta Eugênia (Tieta), a sexta filha do casal Olyntho – o Brugre - e Irene.

 

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